Jack beija Rose na proa do Titanic. Um casal de robozinhos dança no espaço em Wall-E. Henry conquista a desmemoriada Lucy todos os dias em Como se fosse a primeira vez. As imagens do cinema se escondem nas nossas memórias. E assim - sem que a gente perceba - elas tornam referência para nossa vida. Quem nunca quis viver um grande amor? Encontrar um príncipe encantado, que pode tanto ser o milionário de Uma Linda Mulher ou príncipe mesmo, como o Caspian, de As Crônicas de Nárnia?
Sonhamos com um romance arrebatador, de um amor impossível, um beijo na chuva com a pessoa perfeita. Mas todas essas histórias de amor de tela são produzidas, iluminadas, recortadas, montadas. O que aconteceu com alguns daqueles casais depois que o filme acabou? Jerry Maguire e Dorothy chegaram a fazer botas de prata?
O amor de cinema é perfeito porque foi pensado pra ser assim. Vemos só a melhor parte, os grandes momentos (bons ou ruins), longe do relacionamento cotidiano. É coo se apenas existisse o amor, mesmo marasmo, remela, ou contas pra pagar. Rose se acostumaria com a pobreza de Jack? Henry nunca perdeu a paciência com a sua mulher sem memória?
Nos bastidores do famoso beijo entre Scarllet e Reth, no clássico E o Vento Levou, corria o rumor de que a atriz Vivien Leigh não suportava o mau hálito de Clack Gable e sentiu náuseas na hora de fazer a cena. Mas na tela está tudo lá impecável. Mau hálito não cabe em um romance de cinema.
Agora imagine se você pudesse esconder os bastidores da sua vida. Tira fora os momentos mais chatinhos e editar tudo, concentrando-se apenas nos principais. Como regravaria sua grande cena se pudesse voltar e fazer tudo de novo?
Pode parecer tentador, mas a graça todas está justamente em não precisarmos seguir nenhum roteiro. É o dia a dia, nos momentos simples, que nosso amor acontece de verdade. Amar nos entreatos, depois da abertura e antes do clímax: está aí a verdadeira magia para todos nós que habitamos o lado de cá da tela. Afinal, a vida é um plano-sequência - eis a nossa grande, e única, cena.
Renné França
(Revista Gloss nº 57 - Junho de 2012)
(Revista Gloss nº 57 - Junho de 2012)

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